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2007 (2nd Semester)
1. Professor, você pode me dizer algo sobre monografias?
Em
meu blog coletivo, por pelo menos duas oportunidades, comentei sobre
monografias. Reproduzo ambos aqui, para que você veja do que se
trata.
Alguns conselhos para quem escreve projetos de pesquisa ou monografias
1. Você é independente. Mas não
deve desaparecer e somente procurar seu orientador no final do prazo de
entrega da monografia.
2. Jamais escreva equações sem o uso
de um editor de texto próprio (Microsoft Equation, LaTex, etc).
É deselegante e mostra falta de empenho em sua monografia.
3. Não copie e cole gráficos de
documentos alheios. Um gráfico gerado pelo IPEADATA é uma
coisa (e vai sem título, o que é feio e você mesmo
pode obter os dados e criar seus próprios gráficos), o
uso do scanner é outra. Permitir o uso de gráficos de
outros livros pode envolver uma questão legal (copyright de
livros) além de sinalizar ao orientador que você
não é um indivíduo com habilidades para escrever
uma monografia já que precisa usar recursos gráficos
alheios o tempo todo. Há orientador que permite isto. Há
outros que acham que existe um nível ótimo.
4. Não entregue ao orientador um resumo dos
seus fichamentos. Entregue o seu texto, construído a partir dos
mesmos. Um texto é uma peça literária em linguagem
rigorosa (científica) com regras próprias. Então
tem começo, meio e fim e um fio condutor que é
próprio de cada autor, de cada projeto, de cada tema. Entregar
um amontoado de fichas é pedir para perder pontos.
Lembre-se, em todos os conselhos acima, que
você está sempre sinalizando ao orientador o seu tipo (ah,
a boa e velha informação assimétrica). Como ele
não observa seu esforço, mas tão somente o produto
final, sua falta de cuidado é um sinal péssimo.
Claudio
Reflexões de um orientador
Esta última semana reforçou o que
sempre soube: boas monografias não ocorrem se o aluno não
gosta do tema escolhido. De um lado, a monografia da Ana Luiza que -
por unanimidade da banca - ficou muito bem avaliada, com ênfase
para o argumento principal: "A aluna fez o que todo economista deveria
fazer quando vê uma proposta de política pública".
O que foi feito? Analisou-se a proposta de
Déficit Nominal Zero de Delfim, nunca sistematizada pelo autor
em linguagem realmente econômica (português +
matemática + gráficos). Ana fez isto. E o fez com
dedicação. Sem nenhum machismo, há tempos
não tinha uma orientanda com esta competência. Sua
insegurança na apresentação - normal em momentos
como este - foi mais que ofuscada pelo trabalho árduo. Sobrou
tempo para a Econometria? Não. Mas sua monografia indica,
efetivamente, para o caminho a ser trilhado caso se queira analisar
quantitativamente a proposta de Delfim.
Em outro trabalho completamente diferente, Rafael
tratou de estimar uma equação sobre os determinantes do
suicídio. Baseando-se em Hammermesh, adaptou o modelo para o
Brasil e tentou argumentar sobre políticas públicas.
Não há uma originalidade teórica - como no caso da
Ana - mas há mensuração empírica - ao
contrário da Ana.
Aliás, Rafael foi um exemplo de amor ao tema
quando me lembro de que passou dias enfurnado na Faculdade de Medicina
da UFMG buscando material sobre suicídio. Não existe
material bibliográfico no IBMEC sobre isto? Ok, vou aonde a
montanha está (ou Maomé, sei lá). Rafael venceu o
pseudo-paradoxo do aluno rico: "tenho carro, mas sou incapaz de
procurar dados para minha monografia". Usou sua vontade e empenho
(coisas comuns em seres humanos competentes) e leu muito - mas muito
mesmo - sobre suicídio.
Em ambos os casos, pela primeira vez em meus quase
treze anos de academia, tive que pisar no freio. Ana ficou um tempo
rosnando ao ouvir menção de meu nome e Rafael se assustou
com mensagem minha sobre os limites de sua monografia. Em ambos os
casos, a persistência masoquista de ambos os levou à
vitória final. É claro que o mérito é deles
e meu papel foi mesmo o de orientar - com palmadas, se
necessário - para que não se perdessem em meio à
tormenta que é a elaboração de uma monografia.
Lições? As mesmas que sua mãe
te ensinou e você tentou não escutar...até que
não teve mais jeito.
1. Quer fazer uma monografia? Mas quer FAZER ou fazer? Se for FAZER, ame seu tema.
2. Quer um orientador que te oriente ou um que finja
e te faça correr riscos na defesa? Tá, entendi.
Então saiba que o caminho mais fácil não é
o melhor.
3. Boas monografias e revisão da literatura
são quase sinônimos. Revisão da literatura e
leitura desprovida de crítica são antônimos
absolutos.
4. Seu orientador só te elogia? Pergunte ao
Rafael e à Ana o que eles acham de um orientador assim.
5. Tempo dispendido e monografia decentemente
escrita possuem correlação positiva (se é que
não é uma tautologia...).
6. Monografia de Economia que não usa Economia não serve.
7. Caráter e empenho: o segredo que o vovô contava. E você desprezava os velhinhos, heim?
8. A lei dos recursos escassos se aplica ao mundo
dos orientandos bons e ruins e o valor dos primeiros é alto.
9. Não consegue formular uma pergunta para
sua monografia? Vá para casa, estude, cresça e tente
aparecer de novo.
Acho que não preciso dizer mais nada.
É mais ou menos claro que orientandos ruins podem esquecer de
mim. A não ser que desejem reprovação imediata.
Isto é fácil de fazer e não hesito em acabar logo
com más idéias. Bajule-me e me apresente um
péssimo trabalho e sua merecida recompensa virá com o
mesmo empenho de minha parte.
2. Professor, o senhor só orienta alunas?
Há casos de professores que não parecem querer
desenvolver idéias, mas apenas apreciar a beleza natural das
mulheres. Não tenho preconceitos contra homens, mulheres e
variações. Quando se trata de conhecimento
científico, o mais importante é que você, candidato
a ser meu (minha) orientando(a) tenha uma boa idéia
testável econometricamente falando. Se você é
homem, mulher, marciano ou outra coisa, pouco me importa. Aliás,
se você acha que beleza influi na decisão econômica,
você não está sozinho. Daniel Hamermesh é um brilhante economia que estuda isto há anos.
3. O que é um
trabalho acadêmico? Quais seus objetivos, problemas? Enfim,
fale-me um pouco sobre o que se espera desta minha "idéia".
Em minha página sobre Monografias
(você passou por ela para chegar aqui) há algumas dicas.
Mas o diplomata e professor Paulo Roberto Almeida, juntamente com dois
co-autores, elaborou um texto muito interessante sobre o tema e,
honrosamente, cita minha apostila sobre plágio que elaborei
há alguns anos. Dê uma lida neste material. Embora ele
seja centrado na elaboração de dissertações
de mestrado, aplica-se bem às monografias de
graduação. Ele se encontra aqui.
Aliás, se você tem dúvidas, decore:
Graduação <-> Monografia
Mestrado (Acadêmico/Profissional) <-> Dissertação
Doutorado <-> Tese
p.s. Em inglês, o Ph.D. (doutorado) faz dissertation. já o master (mestre) faz thesis. Aprendeu, né? Então vamos em frente.
4. Como funciona a sua orientação?
Pesquisar é o
que faço e monografias são pesquisas. Pois bem, com a
internet, pode-se poupar muito tempo no desenvolvimento da monografia.
Use a internet como fonte complementar para suas pesquisas.
Marcarei encontros SEMANAIS com você, na faculdade. Você
deverá comparecer e deverá ter sempre alguma atividade
realizada. você pode me enviar o material através de
correio eletrônico. Eu o imprimirei, farei minha leitura
crítica e você deverá, em nosso encontro, ter sua
própria cópia impressa para anotar todos os
comentários, críticas e sugestões que eu lhe
fizer. As datas dos encontros serão acertadas através de
endereço eletrônico.
Não crie falsas expectaivas: você não deve contar comigo em feriados ou
finais-de-semana, muito menos em cima da hora da entrega de algum
material.
Estarei sempre disposto a orientá-lo, condicionado a como
você se portou relativamente ao que eu espero de você desde
nosso primeiro encontro. E eu não espero menos que a
excelência. Se você não consegue ler material
sozinho e apreender o conteúdo, escrever frases,
parágrafos, enfim, textos sob as boas regras científicas,
se é um candidato ao plágio (a conversa, inclusive,
termina aqui, neste caso), se não cumpre prazos, nem perca seu
tempo. Procure um orientador menos exigente. Dica adicional: eu
não explico o que é um teste de hipóteses ou como
se interpreta o teste "F". Você já cursou as duas cadeiras
de Econometria, tem a obrigação de usar a linguagem
apropriada e apreendida no curso. Se você não aprendeu
e/ou se esqueceu, comece a pensar seriamente em fazer algo que
não necessite do uso de seu cérebro porque o
uso correto da linguagem de sua área é
pré-requisito para sua boa inserção no mercado de
trabalho (exceto se você possui alguns privilégios e
não deseja enfrentar a vida como todos os outros mortais).
Tenho áreas de pesquisa definidas. Todo pesquisador que cuida de
sua carreira possui algumas poucas áreas de pesquisa. Como
você já deve ter notado de tanto ler coluna de jornal,
quem fala sobre tudo normalmente não entende de nada. Numa
aproximação bem superficial, posso dizer que oriento nas
seguintes sub-áreas da vasta Ciência Econômica:
. Burocracia
. Análise de decisões coletivas
. História econômica do Brasil (mas apenas no aspecto
novo-institucional e no período colonial ou com a
inclusão de Antropometria, na moderna tradição do
desenvolvimento econômico).
. Outros assuntos (apenas se estes se encaixarem em meus interesses de pesquisa. Saiba mais sobre eles aqui).
Se você quer saber mais sobre os dois primeiros tópicos, procure se informar sobre o que é "Public Choice".
A economia novo-institucional é vasta e há autores e
autores. Algumas abordagens são, na minha opinião, bons
exercícios para se interpretar a história. Outras
são uma verborragia loquaz, mas sem muito sentido. Bons exemplos
de leitura novo-institucional podem ser encontrados nos trabalhos de
pesquisadores do Coase Institute, por exemplo. Em termos nacionais, um promissor economista-historiador é Fábio Pesavento. Um bom exemplo na linha brazilianist é William R. Summerhill. Daqui a pouco eu falo mais disto. Continue a leitura.
A dinâmica, comigo, funciona semanalmente. A cada semana,
normalmente na sexta-feira, você me envia uma mensagem
eletrônica relatando o que fez na semana. Mesmo que não
tenha feito nada, deve, sem falta, enviar uma mensagem. O que tiver
sido feito deve ser anexado na mensagem, sempre de forma cumulativa.
Não leio capítulos soltos, desconexos ou separados. Seu
trabalho é progressivo e assim também funciona minha
orientação.
No passado, usei regras como as que reproduzo abaixo, já
adaptadas à sua situação, a partir do primeiro semestre de 2008.
0. O aluno deve gostar de Economia. Logo, ele deve ser alguém que gosta de discussões como as que ocorrem aqui. Também deve conhecer algumas palavrinhas-chave nos diálogos comigo: rent-seeking, soft budget constraint, transaction costs, Public Choice, Austrian Economics, New Institutional Economics, Constitutional Political Economy, Sportometrics, Cliometrics, Anthropometrics e, finalmente, property rights. Eu não disse que voltaria aos temas? Pois bem...
1. O aluno deve, necessariamente, interessar-se pelo tema (gostar muito
e/ou estar extremamente interessado) e o mesmo deve, de
preferência, enquadrar-se em alguns dos listados abaixo. Caso
isto não aconteça, é provável que este
professor não tenha competência suficiente para a
orientação, prejudicando o aluno. Esta regra implica que
o aluno, interessado que é, buscará, por sua conta,
textos referentes ao tema e os trará à
apreciação do orientador. O orientador poderá
trazer textos para o aluno, mas a responsabilidade primordial da
pesquisa é deste último.
2. Sendo inevitável a leitura de títulos em inglês
ou em espanhol, o aluno se comprometerá a fazê-lo. Sobre
alguns temas que orienta, o professor possui resumos em português
e/ou traduções.
5. Vale a pena fazer monografia com você?
Se você gosta de trabalhar, sim. Tenho a honra de ter orientado
algumas boas monografias no passado. Algumas delas renderam
prêmios para as (muito capazes e) competentes
ex-alunas abaixo citadas:
1998 - Patrícia Souza Rocha - 3o lugar no Prêmio Minas de Economia - categoria estudante
1999 - Daniela Bridges Santos - 3o lugar no Prêmio de Monografias Reevista Estado de Minas - Economia
2006 - Leticia Pelluci Duarte Mortoza - 1o lugar na 1a
edição do Prêmio de Monografia do Seminário
de Economia de Belo Horizonte
2007 - Guilherme de Castro - 1o lugar na 2a edição do
Prêmio de Monografia do Seminário de Economia de Belo
Horizonte
Algumas boas monografias também se transformam em artigos.
Vários ex-orientandos, juntamente com meu frequente co-autor,
Ari F. Araujo Jr, tiveram suas monografias transformadas em artigos que
ou estão em fase de publicação ou submissão
em periódicos científicos da área.
Há controvérsias sobre a utilidade de se fazer monografia
comigo porque muitos alunos pensam que farei o trabalho para eles,
desde a concepção original até a conclusão.
Isto não acontecerá em hipótese alguma.
6. Este FAQ não é meio repetitivo?
Sim, e o é propositalmente. Algumas pessoas demoram muito para
perceber o óbvio e, assim, a repetição, aqui,
é um importante recurso didático-pedagógico.
7. Como eu sei se posso ser seu orientando?
Primeiramente, veja se temos interesses em comum em termos de pesquisa.
Leu todo este FAQ? Gostou? Tem uma idéia que percebeu ser
compatível com minhas linhas de pesquisa? Sempre ouviu boatos
nos corredores a meu respeito e hoje morre de medo de mim? Você
tem que pensar em todas estas perguntas. Reflita calmamente. Converse
com meus ex-orientandos, ex-assistentes de pesquisa e com meus
co-autores. Você deve decidir por si, mas é bom se
informar.
Claro, não perca muito tempo. Se você demorar muito, outro
pode ficar com sua vaga. Seja cuidadoso no cálculo do
custo-benefício de seu tempo.
8. Seus interesses de pesquisa mudam com o tempo?
Tudo na
vida pode mudar, mas não conte com isto. Você torce para o
mesmo time desde criança, certo? Pense nisto. A única
coisa que tem me chamado a atenção ultimamente é a
Econometria Espacial, mas você teria que se arriscar para que eu
orientasse você com este instrumental neste exato momento de
minha vida. Mais informações sobre o tema aqui.
9. Queria fazer uma monografia sem econometria com você. Tem jeito?
Só aceito isto em dois casos. Primeiro, você
tentará fazer uma monografia como a da Ana (citada lá em
cima) na qual abrirá um modelo matemático e
desenvolverá sua estática comparativa e, se
necessário a análise dinâmica pertinente para que
não encontre modelos com equilíbrios instáveis. Se
você pretende fazer isto, deve saber resolver problemas de
estática comparativa com facilidade. Eu recomendo, sempre, este
material do professor Barbosa, da EPGE-FGV, que mostra
aplicações (notadamente de estática comparativa)
em Macroeconomia (além de ser um ótimo texto para você estudar para a prova da ANPEC).
O outro caso é aplicável se você se mostrar capaz de fazer um
estudo de História Econômica no qual você desenvolve
seu próprio jogo (adaptado aos fatos estilizados), encontra o(s)
equilíbrio(s) do mesmo e, de maneira científica,
convence-me de que tem algo sério em mãos. Sugiro, neste
último caso, ler isto.
10. E agora?
Tem sugestões? Críticas? Quer saber mais? Procure-me. Meu
email está na página principal. Se você leu este
texto e seguiu as minhas orientações, agora sim, pode me
procurar com muito mais conhecimento do que antes. Se for o caso,
trabalhará comigo por um bom tempo. Se não, encontre um
bom orientador e considere versões similares destes conselhos
porque, você irá notar, eles não mudam muito de
professor para professor...
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